À conta de uma enxurrada de memes na internet, é provável que já tenha ouvido dizer que a evolução parece ter uma predileção por formas parecidas com caranguejos. E, de facto, o plano corporal típico de um caranguejo surgiu repetidas vezes ao longo da história natural, num fenómeno conhecido como "carcinização".
Carcinização e a particularidade dos caranguejos verdadeiros (Brachyura)
Ainda assim, há um traço que distingue os caranguejos verdadeiros (Brachyura) de outros animais com aspeto semelhante: a sua caminhada lateral, quase exclusiva e muito característica.
"A locomoção lateral pode ter contribuído de forma significativa para o sucesso ecológico dos caranguejos verdadeiros", afirma o ecólogo comportamental Yuuki Kawabata, da Universidade de Nagasaki, no Japão.
Um novo trabalho, liderado por Kawabata com uma equipa de instituições do Japão, de Taiwan e dos EUA, aponta que a origem deste "andar de lado" terá sido um acontecimento único na história evolutiva do grupo - algo que pode ter conferido uma vantagem que lhes permitiu diversificar rapidamente e ocupar diferentes nichos de habitat.
"Este único evento contrasta de forma marcada com a carcinização, que ocorreu repetidamente entre espécies de decápodes", explica Kawabata. "Isto sublinha que, embora as formas corporais possam convergir várias vezes, alterações comportamentais como andar de lado podem ser raras."
O andar de lado e o sucesso ecológico dos Brachyura
"Existem cerca de 7,904 espécies de caranguejos verdadeiros, superando largamente o número no seu grupo-irmão, Anomura [caranguejos-eremitas], ou nos seus parentes mais próximos, Astacidea [lagostas com pinças e lagostins]; colonizaram habitats variados por todo o mundo, incluindo ambientes terrestres, de água doce e de mar profundo", salienta Kawabata.
Será que o andar de lado ajuda a explicar esta história de sucesso em termos de sobrevivência? Kawabata e a equipa consideram que sim.
Caranguejos não lhes faltam inimigos: humanos, focas, lontras, aves marinhas, polvos, tubarões e até outros caranguejos maiores competem por uma refeição.
O deslocamento lateral é encarado como uma vantagem defensiva, permitindo-lhes esquivar-se rapidamente de predadores que se movem sobretudo para a frente - e, se já caminhou por um esporão rochoso ou molhe, sabe quão depressa eles conseguem fugir a correr.
Diversidade, inovação e constrangimentos evolutivos
Ao contrário do que sugerem os memes, o "objetivo" da evolução não é propriamente criar mais caranguejos. Se se puder falar em objetivo, seria antes gerar diversidade, aumentando as probabilidades de os seres vivos resistirem ao que quer que o mundo lhes apresente.
"Inovações deste tipo podem abrir novas oportunidades adaptativas e, ainda assim, permanecer condicionadas pela história filogenética e pelos contextos ecológicos", diz Kawabata.
"Com observações comportamentais diretas e uma estrutura filogenética, este trabalho amplia a nossa compreensão de como os modos de deslocação nos animais se diversificam e persistem ao longo do tempo evolutivo."
O que foi observado no laboratório e o que a filogenia sugere
Há, no entanto, um detalhe ligeiramente desconfortável: alguns caranguejos verdadeiros parecem ser exceção à regra do "andar de lado".
Em experiências de laboratório, os investigadores analisaram a marcha de 50 espécies diferentes de caranguejo verdadeiro. Concluíram que 35 eram predominantemente caminhantes laterais, enquanto apenas 15 se deslocavam para a frente na maior parte do tempo.
Ao cruzarem esta análise com uma "árvore genealógica" genética de caranguejos construída recentemente, a equipa inferiu que o padrão clássico de caminhada lateral surgiu num único antepassado comum a todos os caranguejos verdadeiros que se seguiram.
Essa inovação terá aparecido há cerca de 200 milhões de anos, imediatamente após a extinção do Triásico-Jurássico, numa altura em que alterações na crosta terrestre expandiram aquilo que é um dos habitats preferidos dos caranguejos: os ambientes marinhos pouco profundos.
Isto também aponta que os caranguejos verdadeiros que hoje se deslocam sobretudo para a frente terão chegado a esse modo de locomoção a partir do padrão lateral, em vez de o terem mantido inalterado ao longo dos milénios.
Limitações e críticas levantadas na revisão por pares
Como refere um revisor, o ensaio usou apenas um representante por espécie, o que constitui uma limitação: nada garante que um único indivíduo caminhe de forma "normal" para a sua espécie. Trabalhos futuros poderiam repetir a experiência com mais exemplares de cada espécie.
Os revisores observaram também que uma descrição mais detalhada das diferenças anatómicas entre as espécies poderia ajudar a perceber se o plano corporal ou o estilo de locomoção teve um papel mais determinante na evolução dos caranguejos verdadeiros.
Além disso, questionaram a forma como os caranguejos foram classificados como caminhantes para a frente ou para o lado, com base num limiar definido a 60 graus em relação ao eixo bilateral do animal.
"Este limiar pode ser razoável como convenção, mas o artigo não explica porque é o lugar certo para traçar a linha, e há uma preocupação biológica plausível de que um corte angular fixo não significa a mesma coisa entre taxa", afirma um revisor.
Pistas para investigação futura
Investigação futura poderá abordar estes pontos e esclarecer melhor a aparente obsessão da evolução por caranguejos.
"Para separar os papéis relativos da inovação e da mudança ambiental, precisamos de análises adicionais de diversificação dependente de características, cronologias informadas por fósseis e testes de desempenho que liguem o movimento lateral dos caranguejos verdadeiros a vantagens adaptativas", acrescenta Kawabata.
O estudo está disponível como uma pré-publicação revista por pares na eLife.
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