Numa terça-feira cinzenta, às 18h47, instala-se o pânico do jantar. Aquele instante em que ficas a olhar para um peito de frango meio descongelado, uma criança amuada a fazer scroll no TikTok à mesa e uma bancada já cheia de aparelhos que, em tempos, juraste que te iam “mudar a vida”.
É normalmente nesta altura que alguém atira: “Mais valia comprarmos aquele nove-em-um de que toda a gente fala.”
Também já viste: vídeos brilhantes em que influenciadores carregam num único botão reluzente e, por magia, aparecem lasanha, iogurte, chips de couve desidratada e um frango inteiro assado - enquanto a cozinha fica impecável.
A fritadeira de ar que antes era a estrela do Instagram passa, de repente, a parecer baixa e ultrapassada ao lado deste “milagre” multifunções, elegante e cheio de promessas.
Só que cada vez mais cozinheiros caseiros dizem que o milagre é, sobretudo, marketing.
E alguns sentem-se mesmo enganados.
De herói da fritadeira de ar ao “milagre” nove-em-um: como é que chegámos aqui?
Basta percorrer qualquer rede social durante mais de um minuto para o padrão saltar à vista: a mesma bancada, o mesmo enquadramento de cima, o mesmo vapor perfeitamente encenado a subir de uma taça.
A fritadeira de ar teve o seu reinado, a vender o sonho de batatas estaladiças sem culpa. Depois veio a febre das liquidificadoras, a vaga dos espremedores, o momento do sous-vide. Agora, o nove-em-um é o novo herdeiro do trono da tecnologia de cozinha.
A promessa é fazer, no mesmo espaço, cozedura sob pressão, cozedura lenta, saltear, cozinhar a vapor, fritar com ar, assar, preparar iogurte, cozinhar arroz e desidratar.
Nove verbos, um só aparelho.
É aqui que a isca funciona.
Vê o caso da Emma, 34 anos, que vive num apartamento T1 com uma kitchenette tão estreita que mal dá para duas pessoas passarem lado a lado.
Depois de ver uma criadora que segue tirar uma refeição completa de três pratos da mesma máquina no Instagram Reels, a Emma ofereceu a fritadeira de ar para “fazer o upgrade” para um nove-em-um.
O vídeo somou 2.3 milhões de visualizações. A Emma recebeu à porta uma caixa do tamanho de uma pequena máquina de lavar e um manual grosso o suficiente para parecer uma novela.
Na primeira semana, fez de tudo: grão-de-bico na pressão, batatas na função de ar e um banana bread que saiu estranhamente húmido no centro.
Na terceira semana, o nove-em-um já tinha sido empurrado para um canto da bancada, com o cabo enrolado, a “julgar” em silêncio sempre que ela pegava numa simples frigideira.
Há um motivo para isto se repetir.
Estes aparelhos não são vendidos apenas como utensílios: são vendidos como atalhos para uma identidade nova - a pessoa que prepara refeições ao domingo, que come “limpo”, que nunca mais deixa o jantar queimar.
Marcas e influenciadores apostam forte nessa promessa porque ela toca num ponto sensível: estamos cansados, temos pouco tempo e queremos comida caseira sem confusão.
Assim, o nove-em-um não concorre apenas com a fritadeira de ar em funcionalidades.
Concorre no campo da fantasia.
A reação negativa aparece quando a fantasia bate de frente com cozinhas apertadas, fins de tarde caóticos e curvas de aprendizagem que ninguém mencionou nos conteúdos patrocinados.
Porque é que alguns cozinheiros adoram… e outros dizem que é um esquema para preguiçosos
Quando é bem usado, um nove-em-um pode mesmo transformar as noites de semana.
Quem o defende costuma repetir só duas ou três funções essenciais, em vez de perseguir as nove. Por exemplo, pressão + ar é uma combinação forte: dá para cozinhar coxas de frango até ficarem tenras por dentro e, de seguida, estalar a pele no mesmo recipiente.
Ou podes juntar arroz, caldo e legumes, carregar num botão e ir à tua vida sem ficares agarrado ao fogão.
O “segredo” que muitos utilizadores satisfeitos partilham é aborrecido, mas eficaz: escolhe dois modos que encaixem na tua rotina e encara o resto como extra, não como garantia.
A fúria vem de outro sítio.
Não costuma vir de quem odeia gadgets, mas de quem sente que lhe venderam comida sem culpa “ao toque de um botão” e acabou com mais um trambolho.
Um pai de três contou-me que comprou o nove-em-um para “deixar de mandar vir takeaway”, atraído por um TikTok que o apresentava como a solução fácil para famílias ocupadas.
Tentou fazer tudo lá dentro: massa, assados, refeições de uma só panela. Algumas saíram ótimas; outras ficaram estranhamente moles ou passadas.
Em menos de um mês, nas noites mais atribuladas, voltou ao forno e ao micro-ondas. O nove-em-um passou a ser, como ele disse, “uma panela de arroz muito cara”.
A expressão “esquema para preguiçosos” aparece em threads irritadas no Reddit e em grupos do Facebook, mas esconde uma verdade menos confortável.
As pessoas não são preguiçosas. Estão sobrecarregadas.
O que as irrita é a distância entre a publicidade - refeições perfeitas, zero esforço, pouca limpeza - e a realidade: perceber tempos, testar receitas, lavar várias peças e arranjar lugar na bancada.
Sejamos sinceros: ninguém faz isto, todos os dias, religiosamente.
Quando estamos exaustos, até escolher o modo certo parece mais uma decisão em cima de todas as outras.
É aí que nasce o ressentimento: no fosso entre o “piloto automático” prometido e o trabalho que continua a existir.
Como perceber se o nove-em-um vai ser o teu melhor amigo… ou só mais desarrumação
Uma forma prática de cortar o ruído é fazer uma “auditoria” à tua semana antes de comprares seja o que for.
Pega num papel solto ou nas notas do telemóvel e aponta o que cozinhas, de facto, de segunda a domingo. Não o que gostavas de cozinhar, mas o que sai mesmo: pizza congelada, ovos mexidos, legumes congelados, massa, sobras, um assado de vez em quando.
Depois olha para a lista como um amigo ligeiramente rabugento e pergunta: em que momentos é que um nove-em-um entraria com utilidade real?
Se quase nunca cozinhas leguminosas secas, guisados, cortes grandes de carne ou grandes quantidades de cereais, o modo de pressão não te vai poupar assim tanto.
Se o teu dia a dia é sobretudo aquecer e torrar, o forno de sempre e uma boa frigideira continuam a fazer o trabalho de forma discreta e fiável.
Há ainda um lado emocional nesta escolha de que quase ninguém fala nas análises mais técnicas.
Alguns cozinheiros caseiros sentem-se avaliados por estes aparelhos “inteligentes”, como se precisar de ajuda nas bases fosse um defeito. Outros ficam envergonhados quando o gadget ganha pó, como se isso provasse falta de disciplina.
Essa vergonha silenciosa pesa - e é completamente desnecessária. As ferramentas de cozinha devem servir-te a ti, não o contrário.
Uma regra suave ajuda: se um aparelho não te facilitar a vida real no espaço de um mês, isso não é falha de força de vontade.
É só porque não é a tua ferramenta.
Sem qualquer julgamento moral.
Este debate tem também uma ponta cultural: cozinheiros “à antiga” contra fãs de gadgets, técnica contra atalhos.
Alguns cozinheiros experientes sentem-se genuinamente ofendidos pela forma como isto é vendido. Para eles, o ofício, a intuição e a paciência estão a ser trocados por predefinições e ecrãs chamativos.
Outros acolhem de bom grado qualquer coisa que traga mais pessoas para a cozinha, mesmo que comecem com um botão em vez de uma faca.
Como me disse um escritor gastronómico:
“Não me interessa se usas uma panela de barro, uma frigideira de ferro fundido ou uma panela de pressão espacial. Se te ajuda a alimentares-te a ti e às pessoas de quem gostas, é válido.”
Para quem está indeciso, ajuda reduzir a decisão a verificações simples:
- Já cozinhas em casa pelo menos três noites por semana?
- Fazes com regularidade guisados, caldos, cereais ou refeições em lote?
- Tens espaço na bancada ou para arrumar sem isso te stressar?
- Estás disposto a aprender bem uma ou duas funções ao longo de algumas semanas?
- Estás confortável com a ideia de, para ti, acabar por ser um “três-em-um” e não um “nove-em-um”?
Se a maioria destas respostas for não, o risco de frustração é elevado.
Se estás a acenar que sim, o nove-em-um pode ganhar o seu lugar sem grande barulho.
Para lá do hype: o que esta disputa diz sobre a forma como cozinhamos hoje
A discussão à volta do nove-em-um não é, no fundo, sobre aço e plástico.
É sobre tempo, cansaço e a pressão silenciosa de “fazer bem” até na nossa própria cozinha. Para uns, este aparelho é um salva-vidas: uma maneira de comer algo minimamente decente entre turnos noturnos, deslocações, trabalhos de casa das crianças e tudo o resto que a vida atira.
Para outros, é o símbolo de uma tendência que já cansa: tecnologia a aparecer para “resolver” algo que nunca esteve verdadeiramente avariado, ao mesmo tempo que empurra para segundo plano competências básicas como cortar uma cebola ou cozer massa.
Todos já passámos por isso: encarar um gadget e perguntar se comprámos uma ferramenta ou uma promessa.
A vaga da fritadeira de ar mostrou a rapidez com que um aparelho vira símbolo de estatuto e, a seguir, colecionador de pó.
O nove-em-um pode seguir o mesmo caminho, ou pode simplesmente ficar em segundo plano como mais uma opção no conjunto.
A pergunta central é menos “Isto é um esquema para preguiçosos?” e mais “Que tipo de ajuda é que eu quero mesmo na minha cozinha?”
Uns vão manter a frigideira e o forno de confiança, outros vão abraçar o futuro do tudo-em-um, e muitos vão ficar algures no meio, escolhendo ferramentas da mesma forma que escolhem receitas.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Ajustar a ferramenta aos hábitos | Auditar uma semana típica de refeições antes de comprar | Evitar gastar dinheiro em gadgets que não encaixam na vida real |
| Usar bem poucas funções | Focar 2–3 modos centrais em vez de tentar dominar os nove | Menos sobrecarga e mais poupança de tempo de verdade |
| Largar a culpa | Os aparelhos ajudam; não são testes de disciplina | Menos vergonha e mais liberdade para manter ou revender o que não resulta |
FAQ:
- Afinal, um nove-em-um é melhor do que uma fritadeira de ar? Não necessariamente. A fritadeira de ar é mais simples e, muitas vezes, mais rápida para pequenas coisas estaladiças, como batatas fritas ou nuggets. O nove-em-um ganha na cozedura sob pressão, guisados e refeições em lote, mas pode parecer mais lento e volumoso para snacks rápidos.
- Um nove-em-um substitui o forno? Para algumas pessoas, sobretudo em espaços pequenos, sim - pelo menos em parte. Na maioria das casas, acaba por complementar o forno em vez de o substituir, sobretudo para bolos e tabuleiros grandes.
- A comida fica mesmo mais saudável? Pode ficar, se o usares para cozinhar mais alimentos integrais e menos produtos ultraprocessados. O aparelho, por si só, não torna a comida saudável por magia; os ingredientes e as porções continuam a contar.
- A curva de aprendizagem é assim tão difícil? O básico é simples, mas acertar tempos e texturas exige tentativa e erro. Conta com duas ou três refeições falhadas até afinares as tuas receitas de eleição.
- E se eu já tiver uma fritadeira de ar e uma panela de cozedura lenta? Se já funcionam bem para ti, talvez não ganhes muito. Um nove-em-um faz mais sentido se tens pouco espaço ou se queres substituir, de uma só vez, vários aparelhos avariados ou que quase não usas.
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