O que ele viu lá dentro parecia menos um jantar e mais um adereço de CGI: uma lagosta de um azul-elétrico intenso, a brilhar ao lado das carapaças castanhas e baças das restantes - numa zona onde a maioria dos pescadores passa uma vida inteira sem encontrar nada assim.
Uma captura normal transforma-se num milagre estatístico
Em julho de 2025, o pescador de lagosta de Massachusetts Brad Myslinski trabalhava, como de costume, nas suas áreas ao largo de Salem, a bordo do barco Sophia & Emma. A época não tinha tido nada de especial: os tradicionais covos de arame, as pinças presas com elásticos e os corpos castanho-esverdeados, manchados, típicos da lagosta-americana, Homarus americanus.
Até que um dos covos subiu para o convés com algo que não encaixava no guião. Lá dentro estava uma lagosta tão azul e viva que parecia quase falsa, como se tivesse sido pintada a spray para um truque.
"Os cientistas estimam que apenas cerca de uma em 2 milhões de lagostas-americanas é azul, e as probabilidades de um pescador conseguir apanhar uma são mais próximas de uma em 200 milhões."
Estes números foram avançados por elementos de divulgação do Centro de Ciências Marinhas da Universidade Northeastern, em Nahant, Massachusetts, para onde o animal acabou por ser levado. Para ter uma ideia, é muito mais improvável do que encontrar um trevo de quatro folhas ou ganhar muitos jogos de lotaria locais.
Embora lagostas azuis apareçam ocasionalmente nas notícias, continuam a ser um caso limite de acaso biológico - sobretudo quando coincide com um pescador disposto a não as colocar na captura comercial.
Do covo ao destaque na sala de aula
Myslinski percebeu rapidamente que não tinha ali um exemplar comum. Em vez de atirar a lagosta para o lote habitual, contactou um professor de ciências da zona. Em poucas horas, o crustáceo tinha um novo destino.
Seguindo a recomendação do professor, o pescador conduziu o animal até ao Centro de Ciências Marinhas da Universidade Northeastern. Aí, a equipa instalou-o num tanque tátil com rochas, usado em atividades educativas e programas para o público.
Os alunos de uma escola secundária próxima escolheram um nome à altura do aspeto dramático: Neptune.
Hoje, Neptune divide o aquário com tautogas, peixes-cabeçudos, caranguejos-verdes e alguns ouriços-do-mar dispersos. Quem visita pode vê-lo a fazer coisas perfeitamente normais de lagosta - trepar pelas rochas, enfiar-se em fendas e desfazer mexilhões com evidente entusiasmo.
"À exceção da cor, Neptune comporta-se como qualquer outra lagosta-americana: tímida, esfomeada e sempre a reorganizar as rochas no seu canto do tanque."
O que faz uma lagosta ficar de um azul tão vivo?
A cor intensa que torna Neptune tão chamativo não é tinta, nem poluição, nem um efeito de iluminação. Trata-se de uma anomalia genética rara que altera a forma como os pigmentos são processados na carapaça.
O papel da crustacianina
As lagostas-americanas têm, por natureza, um complexo proteico chamado crustacianina. Esta substância liga-se a moléculas de pigmento laranja-avermelhado chamadas astaxantina, obtidas através da alimentação, e altera o comprimento de onda da luz que é refletida.
Numa lagosta típica, essa combinação resulta numa carapaça escura, de tom castanho-esverdeado. Esta camuflagem confunde-se com rochas cobertas de algas e com a vegetação marinha do fundo, dificultando a deteção por predadores.
No caso de Neptune, algo falhou nos genes que regulam a produção de crustacianina.
"O corpo de Neptune produz crustacianina em excesso, o que distorce o equilíbrio habitual dos pigmentos e empurra a carapaça para um tom azul-elétrico muito vivo."
Quando se cozinha uma lagosta, o calor destrói a crustacianina e liberta o pigmento de astaxantina. É por isso que até uma lagosta azul fica com o vermelho conhecido em água a ferver. Já no oceano ou num tanque, a proteína em excesso mantém preso aquele azul impressionante.
Outras cores raras de lagosta
O azul não é a única tonalidade invulgar de que se fala entre entusiastas. Particularidades genéticas e níveis atípicos de pigmentos podem originar várias cores inesperadas.
- Lagostas malhadas (calico): padrões mosqueados laranja e preto, uma espécie de camuflagem salpicada.
- Lagostas amarelas: carapaças muito claras, quase cor de limão; acredita-se que ocorram em cerca de uma em 30 milhões.
- Lagostas "algodão-doce": misturas de rosa pálido e azul-bebé; foi noticiado um exemplar deste tipo em 2024.
- Lagostas albinas ou "cristal": quase brancas e translúcidas, entre as mais raras de todas.
Para quem vive da pesca, puxar uma destas do fundo pode marcar uma carreira. Muitas, tal como Neptune, acabam em aquários ou centros de investigação, e não no prato.
Quanto tempo pode viver uma lagosta como Neptune?
Para lá da cor, Neptune é, do ponto de vista biológico, uma lagosta-americana normal. E isso implica um potencial de longevidade notável.
Há muito que os cientistas se interessam pela duração de vida das lagostas. Acredita-se que alguns indivíduos cheguem aos 80 a 100 anos, embora seja difícil determinar idades com precisão, uma vez que mudam de carapaça repetidamente ao longo da vida.
"As lagostas produzem uma enzima chamada telomerase, que ajuda a reparar as extremidades dos cromossomas e pode abrandar alguns aspetos do envelhecimento celular."
Em muitas espécies, a telomerase é ativa durante o desenvolvimento inicial e depois reduz-se significativamente. Nas lagostas, ao que tudo indica, mantém-se ativa ao longo de toda a vida. Isso pode permitir que continuem a dividir células sem os padrões de envelhecimento mais comuns nos mamíferos.
Ainda assim, não são imortais. Continuam expostas a predadores, doenças, pressão da pesca humana e ao desgaste físico associado ao crescimento e à muda de carapaça em águas profundas. Mas essa vantagem biológica alimenta investigação contínua sobre envelhecimento.
Porque é que estas variações de cor raras interessam à ciência
A carapaça invulgar de Neptune chama a atenção, mas para os biólogos também funciona como um exemplo útil de como os genes se traduzem em características visíveis nos animais marinhos.
Ao comparar indivíduos raros como Neptune com lagostas comuns, os investigadores conseguem explorar:
| Foco de investigação | O que os cientistas analisam |
|---|---|
| Genética | Que mutações afetam proteínas de pigmento e a estrutura da carapaça |
| Ecologia | Se cores raras alteram as probabilidades de sobrevivência no habitat natural |
| Fisiologia | Como proteínas de ligação a pigmentos, como a crustacianina, se comportam em diferentes condições |
| Envolvimento do público | De que forma animais invulgares podem despertar interesse pela conservação marinha |
Em centros educativos, uma lagosta azul-elétrica consegue iniciar conversas com mais facilidade do que qualquer painel informativo. Crianças e adultos juntam-se junto ao tanque, fazem perguntas e saem com uma ligação mais forte aos ecossistemas costeiros.
O que aconteceria a Neptune no habitat natural?
É natural perguntar se Neptune teria tido bons resultados caso nunca tivesse entrado num covo. Para os humanos, aquela “armadura” azul brilhante é fascinante - mas no mar pode ser um problema.
Junto a rocha escura e grandes algas, uma lagosta castanho-esverdeada passa despercebida. Uma azul-neon destaca-se, sobretudo para predadores como bacalhau, tamboril e caranguejos de grande porte.
Alguns cientistas suspeitam que muitas lagostas de cores raras não chegam à idade adulta, em parte porque a carapaça funciona como um sinal visual. Assim, as que atingem o tamanho legal de captura representam uma fração ainda menor do que os números genéticos, por si só, sugerem.
Num tanque controlado, Neptune deixa de ter de se esconder de predadores. Isso dá aos investigadores a oportunidade de observar, ao longo do tempo, como uma lagosta deste tipo se comporta, se alimenta e muda de carapaça.
Termos curiosos: crustacianina e telomerase
Há duas palavras científicas que aparecem repetidamente na história de Neptune e que vale a pena explicar de forma breve.
Crustacianina é um complexo proteico presente em muitos crustáceos, incluindo lagostas e camarões. Não “cria” cor por si; em vez disso, liga-se a pigmentos carotenoides e altera a forma como a luz é refletida. Pense nela como uma lente que muda o espectro de cor mostrado pela carapaça.
Telomerase é uma enzima que mantém os telómeros, as “tampas” protetoras nas extremidades dos cromossomas. Em muitos animais, os telómeros encurtam a cada divisão celular, o que está associado ao envelhecimento. Ao manter a telomerase ativa, as lagostas parecem abrandar esse processo, pelo menos em alguns tecidos.
Nenhuma destas substâncias é exclusiva de Neptune. O que o torna especial é a produção extrema de crustacianina, que empurra a cor muito além do intervalo habitual.
Ver vida marinha rara sem sair de terra
Histórias como a de Neptune costumam dar vontade de correr para o cais mais próximo com um balde. Para a maioria das pessoas, porém, a forma mais simples de ver animais marinhos invulgares é através de aquários públicos e centros universitários de divulgação.
Estes programas costumam ter tanques táteis e visitas guiadas, onde os visitantes podem tocar ou observar de perto caranguejos, estrelas-do-mar, pequenos peixes e, ocasionalmente, achados raros como lagostas azuis. As equipas aproveitam estes encontros para falar de pesca sustentável, poluição costeira e pressões climáticas sobre a vida marinha.
Para as famílias, uma ida a estes espaços pode ser mais do que um passeio. Ver um animal como Neptune tão perto levanta questões sobre probabilidade, genética e sobre como pequenas alterações no ADN podem reescrever a história de vida de um ser vivo. Nesse sentido, o título “uma em 200 milhões” torna-se um ponto de partida para pensar em tudo o que acontece por baixo da superfície de mares aparentemente comuns.
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